Bom, é isso aí, o Perversidades acaba aqui. Esse blog documentou meu pensamento nos últimos 2 ou 3 anos, mas agora, por uma série de motivos, vou aposentá-lo. A principal razão é que eu mudei bastante minha forma de pensar no decorrer desse tempo, e hoje em dia eu já não concordo com tudo que escrevi aqui. Gostaria de rever vários assuntos que já foram tratados, mas numa “folha em branco”. Não vou apagar esse blog porque ele serve, senão pra mais nada, como registro histórico pessoal da minha vida. Em breve devo criar outro blog e vocês poderão novamente se deliciar com minha irreverência e bom humor (rs). Enfim, that’s it. Foi bom enquanto durou.
Emprego público, faculdade e trabalho
julho 6, 2011Há tempos que eu quero fazer um post sobre esse tema e coisas relacionadas, mas tava faltando um impulso, alguma novidade que pudesse botar o assunto em relevância pra eu poder explorar melhor. Esse impulso chegou. Indiretamente, mas chegou: tava vendo no Jornal da Globo que 88% dos bacharéis em direito que prestaram o exame da OAB esse ano foram reprovados. Alguma coisa tá errada, né? Seria culpa dos alunos, que são burros? das faculdades, que não ensinam direito? da OAB, que é rigorosa demais?
Como é de conhecimento geral, todo bacharel em direito precisa passar pelo exame de admissão da OAB pra se tornar, de fato, um advogado e poder exercer a profissão. O que talvez muitos não saibam é que no Brasil existem mais faculdades de direito do que no resto do mundo inteiro somado. Isso é um reflexo direto de algo que eu considero um problema terrível do nosso país: a “indústria” do funcionalismo público. Apesar de alguns concursos públicos aceitarem graduações de nível superior em qualquer área, alguns dos mais bem-pagos e concorridos (como para os cargos de procurador e juiz) são exclusivos para pessoas formadas em direito.
Emprego estável, do qual você não pode ser demitido com facilidade, trabalho relativamente fácil, horários reduzidos e pagamento bem acima da média do mercado privado. Essas são as características que levam uma boa parte dos cidadãos brasileiros a procurar a carreira de ‘concurseiro’, pessoa que vive pra fazer concursos públicos. O problema está na bigger picture.
Um país vive do que produz e comercializa. Agricultura, indústria e comércio são as fontes de dinheiro de qualquer lugar. É evidente, portanto, que um país que produz e/ou comercializa mais ganha mais e é mais rico. Os governantes, porém, se apropriam de uma parte de toda essa produção sem qualquer tipo de consentimento do produtor, na forma de impostos. Esses impostos servem pra sustentar os serviços públicos do país, que são oferecidos gratuitamente aos cidadãos, como saúde, educação, estradas, segurança, documentos e bolsas assistenciais. Ah, e, claro, os salários dos funcionários públicos também são pagos com esse dinheiro. E eu te pergunto: o que os funcionários públicos produzem?
Exatamente, nada. Ou seja, vivemos num país cujos melhores salários do mercado são pagos a quem não produz nada, com dinheiro expropriado, sem qualquer consentimento, de quem produz alguma coisa. Botando assim, em termos claros, chega a ser revoltante, mas o que me incomoda mais é que as pessoas convivem com esse sistema pacificamente, sem pensar em questioná-lo, mas sim em se aproveitar dele. Aí entram as faculdades.
Uma das leis mais básicas do mercado, que todos devem conhecer, é a da oferta & procura. Se há muita oferta e pouca procura, os preços caem. Se há muita procura e pouca oferta, os preços sobem. O mercado de trabalho também segue essas leis, porém com salários ao invés de preços. Se existem muitos profissionais pra poucas vagas, esses profissionais vão ganhar mal. Se existem muitas vagas pra poucos profissionais, os profissionais vão ganhar bem. Um curso de medicina, por exemplo, demanda muitos recursos pra existir (laboratórios, cadáveres, etc), e por isso existem relativamente poucos cursos de medicina. Resultado: médicos são raros, e por isso ganham bem. Já letras, por exemplo, é um curso que não demanda muitos recursos pra existir (basicamente, livros), por isso existem muitas vagas e os profissionais da área não ganham tanto quanto os médicos.
O curso de direito não depende de muitos recursos pra existir, pois também se resume basicamente à leitura de textos, mas a abundância de vagas não afeta o valor dos salários oferecidos pelo governo aos funcionários públicos dessa área. Resultado: milhares de cursos de direito meia-boca se proliferando pelo país, com o aval do MEC. O resultado da prova da OAB só mostra quantas pessoas totalmente ineptas pra advocacia se formam em direito todo ano, e isso sem contar as que simplesmente não fizeram a prova porque só queriam fazer concursos mesmo. Nem o excesso de vagas nos cursos de direito e nem a procura monstruosa por empregos públicos afetam o valor dos salários pagos aos funcionários, e isso cria essa condição doentia em que você ganha mais não produzindo nada.
Outro problema sério que essa proliferação desnecessária de faculdades acarreta é um inflacionamento terrível do valor de um diploma universitário. Na área do direito, graças à OAB, nem tanto, mas em outras áreas isso tem me assustado. O melhor exemplo é a engenharia. 80% dos estudantes de engenharia que eu conheci aprenderiam mais e seriam mais úteis ao mercado se fizessem um curso técnico da área correspondente, e deixassem a engenharia pra quem QUER fazer engenharia, pela natureza da profissão, e não pelo salário. Engenharia é uma área que eu admiro muito, mas de que adianta você, que tem vocação, ter um diploma se qualquer idiota pode fazer uma Uniesquina e ‘se igualar’ a você? Isso só serve pra desvalorizar o diploma. Atualmente o Brasil ainda não tem excesso de engenheiros, mas vejo isso acontecendo num futuro próximo se o MEC não adotar um rigor maior pra avaliar instituições de ensino.
Até o ProUni, que é um programa bem legal do governo, e poderia representar uma chance de ascensão social pra muita gente que nunca teve essa chance, não tá sendo tão positivo quando poderia ser, simplesmente porque a maioria das faculdades particulares é uma merda. Pros diplomas conseguidos com o ProUni terem um valor real, eles não podem ser conseguidos em qualquer lugar. Esse é o motivo do ouro ser mais valioso que a terra, por exemplo. Se os alquimistas tivessem conseguido a fórmula pra transformar qualquer metal em ouro, a única coisa que ia acontecer é que o ouro ia perder totalmente o valor.
Resumindo: Produção gera riqueza. Salário pago com imposto tirado dos outros não é riqueza. E as coisas só mostram seu ‘valor real’ pra sociedade quando estão sujeitas à “mão invisível” do mercado. 100+
(adendo 1: Post sem imagens e meio mal escrito porque eu tô com sono, escrevendo numa posição super desconfortável, deitado na cama com um notebook no colo, e com torcicolo)
(adendo 2: Quando eu digo “funcionários públicos”, eu me refiro exclusivamente aos burocráticos. Claro que médicos, professores e até mesmo policiais são trabalhadores muito úteis à sociedade e merecem ser muito bem pagos por seus serviços. Estranhamente, entre esses estão os que recebem os salários mais baixos do funcionalismo público. Por que será?)
Ótica E Estética 101
julho 5, 2011Disclaimer: esse post não é mimimi. Sério. Leia e comprove.
Ontem eu comprei um notebook e hoje, ligando a webcam do mesmo, eu fiquei horrorizado com o que vi: minha cara. Eu pensei “meu deus, eu realmente sou isso aí? Minha cara é torta desse jeito? As pessoas realmente conseguem olhar pra mim sem vomitar pus?”. Nas outras webcams eu não me achava tão escrotamente deformado assim. Twittei sobre minhas impressões e a deusa das trevas †Morrigan Asphodel† deu um reply interessante. “Oh, a pavorosa visão de se ver através de uma webcam que não espelha a imagem.”, disse ela. Aí eu reparei que realmente a webcam do notebook não espelhava a imagem, e pensei “ENTÃO SERÁ QUE EU REALMENTE SOU ESSE DEJETO HUMANO? ESTIVE SENDO ENGANADO PELO ESPELHO ESSE TEMPO TODO?”. Não fazia sentido. Eu tenho alguns amigos, uma namorada, minha mãe diz que eu sou bonito, eu duvidei que aquele Quasímodo que eu vi na webcam conseguiria isso.
Então, de repente, numa epifania, eu desvendei o esquema geral das coisas.
Imagine que essa é sua cara. Olhos assimétricos, de tamanhos diferentes e posicionamentos não alinhados, uma orelha maior que a outra, a boca parecendo um rabisco, o nariz enorme e torto pra um dos lados. Ok, você não sou eu, mas eu acredito que a sua cara também não seja perfeitamente simétrica, por mais que não seja deformada que nem a minha.
Pra desenvolver o raciocínio, vou fazer uma analogia. Imagine uma linha infinita, sem começo nem fim (duh). Como você pode dizer que um ponto nessa linha está “à direita” ou “à esquerda”? Você precisa de um referencial. Nada está à esquerda de nada, pra estar à esquerda, precisa-se de algo como referência. Vamos imaginar então um ponto referencial em qualquer lugar dessa linha, cujo valor de coordenada é 0. Tudo que está à esquerda de 0 é negativo (-1,- 2, -3) e tudo que está à direita de 0 é positivo (+1, +2, +3).
Da mesma forma, pra eu saber que minha cara tava torta na webcam, eu tinha que ter uma referência dela não-torta. Claro que eu podia usar padrões humanamente impossíveis de simetria, mas nesse caso a cara de qualquer pessoa no mundo estaria torta. Tinha algum motivo especial pra eu achar minha cara não-espelhada MAIS torta que o normal. Daí eu percebi que minha referência de ‘minha cara não-torta’ era… ta-da, o espelho! O espelho, como sabemos, inverte horizontalmente qualquer imagem projetada nele, de forma que se eu levantar meu braço direito na frente de um espelho, é o braço esquerdo do reflexo (que está do lado direito da minha visão) que se levanta. Então, sendo minha cara como na imagem acima, a imagem que eu sempre vi dela foi essa:
Resultado: ao ver ela “certa”, eu me achei muito mais torto do que eu normalmente acho.
Isso explica muito bem um outro fenômeno: o fato da gente sempre se achar mais bonito no espelho do que em fotos. No espelho, você vê o “seu” referencial, a imagem que você tá acostumado a ver de você mesmo. Já nas fotos você vê a imagem real, que todas as outras pessoas vêem. Conclusão: eu sou mesmo o dejeto humano da webcam? Sim e Não.
Voltando à nossa linha: sendo ela infinita, qual é o critério que eu vou usar pra definir o ponto zero? Ele deveria ficar no meio dela, pra resultados exatos, mas uma linha infinita não tem meio. E agora? Simples, você define o zero no ponto que te for mais familiar, mais próximo. No caso da sua cara, vamos quantificar um “grau de tortice”. Suponhamos que sua cara, vista no espelho, tenha um grau de tortice de -5, isso é, está 5 pontos à esquerda da simetria perfeita. Como você não tem um referencial de simetria perfeita, seu ponto zero vai ser definido exatamente como esse -5, aquela imagem tão familiar, que você vê todo dia no espelho.
Aí, quando você se olha numa foto (ou numa webcam não-espelhada), você vê aqueles 5 pontos ao contrário (sem a inversão horizontal do espelho), ou seja, +5, isso é, 5 pontos à direita da simetria perfeita. Como, pra você, o ponto referencial (zero) é -5 (absoluto), você está vendo na verdade um +10, ou seja, MUITO mais torta do que sua cara realmente é. Isso já me tranquilizou um bocado.
Agora tenho uma notícia ruim e uma boa. A ruim é que você realmente é o que você vê nas fotos. A boa é que as pessoas te vêem (subjetivamente) como você se vê no espelho, porque, assim como você está acostumado a ter como referência a sua visão ‘ao contrário’, as pessoas estão acostumadas a ver você do jeito “certo”, então a imagem que parece estranha e torta pros outros é justamente a que você acha ‘normal’, a do espelho. Faça um experimento, peça pra alguém que você tá acostumado a ver ficar na frente de um espelho e olhe pro reflexo da pessoa. Você vai ver como ela parece bem mais torta dentro do espelho.
Enfim, resumindo, eu continuo perdendo meu tempo com bobagens. Espero ter sido claro e útil. 100+
A Ford anda lendo meu blog
julho 2, 2011Hoje, na minha leitura matinal (cof cof) do Jalopnik, me deparei com um post (patrocinado) da Ford, falando sobre o novo Ford Ka 2012 e uma versão esportiva que vai ser lançada. Visualmente, eu curti:
Como eu falei num outro post neste mesmo blog, um grande buraco que existe no mercado automotivo nacional é de “coupés de entrada”, carros pequenos, com visual e desempenho agressivos e preço baixo, voltado pro público mais jovem que, agora, em tempos de crescimento econômico do Brasil, tem condições de comprar carros cada vez mais cedo. Pelo jeito a Ford percebeu isso. O Ford Ka não é exatamente um coupé, mas é a coisa mais próxima disso que existe no nosso país saturado de carros prateados, caretões e entediantes.
Só espero que o desempenho confirme o que o visual promete, pois outra mania das montadoras nacionais é lançar versões “esportivas” de carros comuns, que de esportivas só tem as cores, umas faixinhas coloridas e outros enfeites, mas por dentro ainda são os mesmos carros caretas de sempre. Aguardarei reviews de quem manja do assunto. 100+
Egoísmo e lucro
junho 29, 2011Vivemos num ocidente cristão. Egoísmo e lucro são duas palavras que carregam um valor negativo na maior parte das vezes em que são usadas. “Lucro” quase sempre é visto como “tirar vantagem” (de forma inescrupulosa) de algo ou alguém. Se alguém lucrou, foi às custas do prejuízo de outra pessoa. “Egoísmo”, então, nem se fala. É ofensivo chamar alguém de egoísta. Egoísta, no senso comum, é aquela pessoa que prejudica os outros em prol de si mesmo. Já “altruísta”, o antônimo, é um elogio dos mais nobres.
Eu, porém, não tenho vergonha nenhuma de dizer que sou egoísta e procuro sempre o lucro.
Lucro, ao contrário do que os socialistas as pessoas costumam achar, não significa tirar vantagem inescrupulosamente. Imaginemos: O Rond plantou tomates na fazenda dele. Ele gastou, suponhamos, considerando o tempo e os recursos utilizados, 10 centavos pra produzir cada tomate. Ele vendeu cada tomate a 20 centavos pro Catito, dono da distribuidora. O Catito gastou mais 5 centavos de tempo e recursos pra empacotar cada tomates, e vendeu os sacos pra Laura, dona de um supermercado, por um valor que equivale a 50 centavos por tomate. A Laura gastou 55 centavos na manutenção desses tomates até eles chegarem às prateleiras do supermercado dela. Eu fui ao supermercado da Laura e, por livre e espontânea vontade, comprei 5 tomates por 70 centavos cada. Cheguei em casa, fiz uma macarronada deliciosa e fiquei bastante satisfeito. Todos os envolvidos nesse processo lucraram, e ninguém teve prejuízo.
Como vocês podem ver, o lucro é algo perfeitamente ético e jamais deve ser motivo de vergonha, e sim de orgulho. Eu sempre busco o lucro, em todas as situações possíveis. Algumas, porém, não são quantificáveis em dinheiro. Eu me sinto bem ao ver meus gatinhos felizes, e eu considero isso um lucro em relação ao preço que eles me custam em dinheiro e tempo/esforço, pra comprar ração e limpar o cocô, por exemplo. Se não achasse, não teria gatos. A satisfação pessoal é uma forma de lucro, e é a raison d’être de todas as outras. Dinheiro não vale nada se não puder ser gasto pra dar prazer a seu dono.
O egoísmo já é uma questão um pouco mais complicada, mas se você acompanhou meu raciocínio até agora, provavelmente vai entender.
Eu gosto de ser o mais sincero possível em tudo que eu digo e faço. Isso me causa satisfação. Quando eu abraço alguém, eu gosto de pensar que fiz aquilo porque eu realmente queria abraçar aquela pessoa (i.e. porque aquilo me daria prazer), e não por convenção social, piedade, pena ou esperando que ela retribua o favor de alguma forma. E, apesar de existir gente “genuinamente altruísta”, que se sinta bem fazendo coisas pros outros, eu não sou assim. Eu me sinto bem agindo em prol de mim mesmo, e acho que, fazendo isso, eu estou sendo sincero comigo mesmo e com todos ao meu redor.
E eu também espero isso de volta. Assim como eu não vou me sacrificar por ninguém de graça, eu espero que ninguém se sacrifique por mim de graça, e em hipótese alguma eu forçaria esse tipo de comportamento. Reprovo totalmente qualquer invasão da liberdade e da propriedade alheias. São os direitos básicos que qualquer criatura precisa pra viver em sociedade.
Eu aplico isso nas minhas relações interpessoais também. Se eu sou amigo de uma pessoa, significa que ela me proporciona algum retorno positivo, e eu espero proporcionar o mesmo a ela. Eu não me relaciono e nunca vou me relacionar ninguém por piedade, convenção social ou esperando favores.
Isso tudo pode parecer muito frio e egocêntrico pra um leitor que acredite em coisas como “o poder da amizade” e coletivismos em geral, mas é a única forma das coisas funcionarem de forma justa e pacífica. Se você dá uma recompensa pra quem não fez nada, isso só vai incentivar a pessoa a continuar não fazendo nada. Se você não dá uma recompensa pra quem fez algo que merecia uma, isso só vai incentivar a pessoa a não fazer mais. Simples.
“E os outros, como ficam? Você não pensa nos outros?”
Penso sim. Como você, leitor esperto, já deve ter compreendido, o lucro (nesse modelo que eu descrevi) de alguém nunca vem sozinho. Se eu quero lucrar, é uma consequência natural que outras pessoas lucrem também. Pense em quantas pessoas o Bill Gates empregou, quantas famílias ele sustentou, pra ganhar os bilhões dele. Se ele tivesse sido “altruísta” e trabalhado em obras de caridade ao invés de perseguir o próprio lucro, ele teria deixado de proporcionar meios de vida pra cada funcionário da Microsoft (e, em extensão, dificultado a vida de cada usuário do Windows). Ninguém ganha nada prejudicando os outros de graça, e tem grandes chances de você ser bem recompensado, tanto com satisfação quanto materialmente, ajudando os outros de uma forma que seja vantajosa pra você.
Resumindo: Eu sou egoísta, quero lucrar, e não tenho a menor vergonha de dizer isso. 100+
Adendo: ”I am not primarily an advocate of capitalism, but of egoism; and I am not primarily an advocate of egoism, but of reason. If one recognizes the supremacy of reason and applies it consistently, all the rest follows.” – Ayn Rand
Anonymous e LulzSec
junho 22, 2011O Anonymous surgiu no 4chan. Inicialmente como um meme, uma ideia asbtrata de que o coletivo dos usuários anônimos do /b/ era um cérebro gigante, sem organização e sem líderes, mas capaz de influenciar a internet e o mundo. Começaram fazendo brincadeiras “ofensivas” no Habbo Hotel. Depois, teve o tal Project Chanology, que foi uma série de protestos contra a Igreja da Cientologia (Church of Scientology), mas poucos aconteceram no “mundo real”, a maior parte de todas as ações do grupo foi na internet.
Em 2007, quando eu comecei a frequentar o 4chan, já se falava em uma cisão entre o /b/ e o Anonymous, que “se organizava” em vários cantos da internet, como o IRC, 7chan, Encyclopedia Dramatica e fóruns soltos por aí. Inicialmente o foco do Anonymous eram as piadas práticas, como manipular o ranking das “pessoas do ano” da revista People pras iniciais dos escolhidos formarem os dizeres “The Game”. Com o tempo, porém, eles foram ficando cada vez mais sérios e politicamente engajados. O Anonymous se tornou um símbolo de uma “luta ideológica” contra a corrupção e a favor da liberdade na internet e fora dela.
Agora, as novidades (e links): Ontem eu soube que um grupo chamado LulzSec, ligado ao Anonymous, começou a atuar no Brasil. Sua primeira ação foi mais publicitária do que funcional, tiraram do ar três sites do governo brasileiro por algumas horas, provavelmente com um DDoS. Hoje me deparei com um vídeo circulando pelo Facebook, “assinado” pelo Anonymous e explicando suas motivações e objetivos.
Eu admiro profundamente a estrutura de (des)organização do Anonymous. É praticamente perfeita. Qualquer pessoa pode ser parte do Anonymous, de médicos a entregadores de pizza. É como uma identidade secreta aplicada ao coletivo. O Anonymous não tem líderes, não tem uma base geográfica, não tem ‘um culpado’, é simplesmente uma ideia. Uma ideia que já atingiu a mente de muitas pessoas, uma ideia que não pode ser silenciada por nenhuma autoridade. “Ideas are bulletproof”.
Infelizmente, apesar da estrutura genial, o Anonymous tem me decepcionado muito. Em primeiro lugar, por aparentemente não perceber a real natureza de si mesmo. Convenhamos, amigos, vocês têm uma boa estrutura na internet, mas só isso. Fora dela, “nós” (me colocando como parte do grupo) somos apenas caras solitários que cresceram jogando videogame e usando a internet.
O Anonymous não tem e dificilmente terá, num futuro próximo, representação política, e apesar de ser impossível pras autoridades ‘cortar o mal pela raíz’ (porque não existe raiz), o Anonymous vai continuar com o campo de ação limitado à internet. E eu duvido muito que o governo vai reagir a um DDoS dizendo “Oh! Eles estão certos! Vamos parar de ser corruptos ou vão hackear nossos emails!”.
A tática de um dos protegidos do grupo, Julian Assange, é boa, mas envolve ações fora da internet que o Anonymous seria incapaz de realizar por conta própria. Porém, ‘proteger’ pessoas é uma boa estratégia pro próprio Anonymous, que, apesar de não ter liderança, precisa de “figureheads”, mesmo que temporários, pra dar uma voz e forma concreta aos ideais do grupo.
Outra coisa que eu discordo são as ações pró-pirataria de arquivos. Simplesmente porque ninguém tem incentivo pra produzir nada se não puder obter lucro com aquilo. Eu também não gosto das grandes gravadoras, dos preços absurdos que elas cobram e das merdas que elas tentam nos enfiar goela abaixo, mas acho que os músicos merecem ganhar pelo seu trabalho. Aliás, todos merecem ganhar pelo seu trabalho. No texto do Estadão diz que a LulzSec se posiciona “contra todos os governos, bancos e grandes corporações do mundo”, exemplo claro de confusão ideológica. As “grandes corporações” da iniciativa privada cresceram tendo boas ideias e trabalhando nelas, elas merecem cada bilhão que valem. Cada pessoa que deu um centavo pra uma Microsoft ou Apple, o fez em plena consciência do seu ato. Já os governantes enriquecem às custas de dinheiro tirado à força de quem trabalha (impostos), sem merecer, de fato, o investimento.
Vocês estão bem organizados, mas falta um direcionamento claro. Um grupo sem organização definida sempre corre o risco de esbarrar em si mesmo pra sempre, e nunca sair do lugar. Estamos aqui observando. 100+
HUEHUEHUEHUEHUEHUE
junho 8, 2011Ontem, na cama, sem dormir, como sempre, eu comecei a pensar sobre a infame risada que hoje em dia é quase tão sinônimo de Brasil quanto bunda e carnaval. Assim como vários “símbolos nacionais” (como a bunda e o carnaval), essa forma tão característica de expressar emoções é associada, aqui dentro do Brasil, com as classes mais baixas, a população menos educada e tal. E, como tudo que é associado às classes populares, sofre um certo preconceito da ‘classe média’. Talvez não tanto quanto as outras coisas, porque até a classe média brasileira se utiliza muito dessa tal risada (quando não daquelas variações tipo “aokspoakspaokspaoks”) sem refletir muito sobre o suposto estigma de ‘pobreza’ que ela carrega. Alguns, porém, não usam, pra se manter em sintonia com os buddies norte-americanos ou europeus.
Eu, sinceramente, não sou daqueles defensores irredutíveis da cultura ‘de pobre’. Eu acho carnaval uma breguice sem tamanho, considero a maior parte da música pop brasileira (pop no sentido de popular, leia-se forró, axé, pagode e cia.) uma merda, mas eu faço questão de julgar cada coisa individualmente e tentar não cair no viés “é de pobre = é ruim”. O rap nacional, por exemplo, é um tipo de arte que eu admiro PRA CARALHO, já até escrevi sobre isso aqui no blog.
Refletindo sobre a tal risada, eu percebi que gosto bastante dela. Ela expressa uma característica que eu aprecio muito: espontaneidade. É uma demonstração de entrega, ingênua e sem maldade, à graça da situação. As risadas mais utilizadas por estrangeiros, como “lol”, “rofl”, “lmao”, e até o clássico genérico ‘hahahahahahaha’ têm um feeling de sarcasmo, da risada que é dada às custas do sofrimento de alguém, enquanto o nosso riso histérico é humilde, coletivista. É o riso que se ri “com”, e não “de”.
Acho que isso reflete muito da nossa cultura e da nossa visão do próprio país e de nós mesmos. Os norte-americanos se orgulham do seu poder bélico, do seu alto nível de industrialização e desenvolvimento, de serem a maior economia do mundo. Os europeus se orgulham de ser o berço da cultura ocidental, e também são desenvolvidos, industrializados e economicamente fortes. E nós? Nós sabemos muito bem que somos um país pobre, de terceiro mundo. Enquanto o pessoal do primeiro mundo ri dos outros, nós rimos de nós mesmos. Nós não rimos da pobreza alheia, mas da nossa própria. Nós não ostentamos orgulho, pelo contrário: o que os brasileiros mais fazem é reclamar do próprio país.
Essa humildade e espontaneidade são aspectos da cultura brasileira que eu gosto muito. Eu queria “poder” ter orgulho do meu país, e acho que quem já foi pobre um dia vê a riqueza com olhos diferentes. O Brasil tá crescendo, se desenvolvendo, melhorando, e eu acredito que em breve vamos ter uma estrutura melhor aqui, mas espero que sempre nos lembremos de quando não era assim, e mantenhamos esse espírito que se manifesta tão bem no HUEHUEHUEHUEHUEHUEHUEHUEHUE.
Aprendizado Tangencial
maio 4, 2011Postzinho rápido hoje. Como muitos sabem e outros não, eu estudava jornalismo, mas larguei a faculdade e agora pretendo prestar vestibular pra economia no final do ano. É uma mudança radical que reflete outra mudança radical, que aconteceu dentro da minha cabeça, da qual falarei em detalhes quando estiver mais inspirado.
Outro dia eu vi um vídeo do Extra Credits sobre aprendizado tangencial aplicado a videogames. Ele diz, resumidamente, que jogos educativos, tipo “vamos aprender matemática brincando” são chatos e ninguém se interessa por isso, mas os videogames, assim como o cinema, são uma ferramenta poderosa de educação, se usadas da maneira certa. Os filmes já são usados em instituições de educação há muito tempo, principalmente em faculdades, mas o videogame ainda tá engatinhando nesse sentido.
Refazendo o caminho mental que me levou à “mudança radical” do primeiro parágrafo, percebi que um dos motivos disso foi o contato com a “filosofia” (acho meio estranho chamar assim) da Ayn Rand, por meio de um livro que eu ainda tô lendo, Atlas Shrugged (A Revolta de Atlas). E como eu cheguei até esse livro? Graças a um videogame: Bioshock. Enquanto eu matava os malditos splicers e big daddies, modificava meu próprio código genético pra ganhar poderes e tentava escapar de Rapture, eu tive contato com uma corrente teórica que mudou drasticamente minha vida e minha forma de pensar. Se isso não é aprendizado tangencial, não sei o que é. 100+
Dois lugares
abril 28, 2011Hoje vou tratar de um assunto que eu confesso entender bem pouco, mas gostaria de expor algumas opiniões a respeito: Carros. Eu não tenho carteira de motorista, nunca dirigi um carro e meu núcleo familiar sequer teve um, mas sou um grande admirador da indústria automotiva. Ela teve um papel importantíssimo no desenvolvimento do Brasil, e serve mais ou menos como um espelho de certas práticas e opiniões que aparecem país afora.
O Brasil, como todos sabem, é um país que viveu por muitos anos numa pobreza enorme e agora começa a dar sinais de desenvolvimento, e tende a continuar assim (se desenvolvendo) pelos próximos anos. A indústria de automóveis foi uma das primeiras a se instalar no Brasil. Antes da ditadura militar proibir a importação, quatro montadoras haviam construído fábricas no brasil: As americanas GM (sob o nome de Chevrolet) e Ford, e as europeias Fiat e Volkswagen. Carros sempre foram bens caros, até hoje não é fácil juntar dinheiro pra comprar um carro novo, mas dos anos 90 pra cá eles têm se popularizado, graças a modelos desenvolvidos especialmente pro nosso mercado, focados em eliminar luxos desnecessários e manter o preço baixo.
Hoje em dia, com a abertura para importações e maior vigor econômico, temos muito mais variedade de marcas e modelos disponíveis. Mesmo assim, até bem pouco tempo atrás, ou talvez até hoje, era raro uma pessoa de menos de 40 anos ter dinheiro pra comprar um carro, a não ser que já tivesse nascido rica (o que é o caso de poucos). Isso levou a um dos traços mais marcantes do nosso mercado automotivo: a caretice. As fabricantes perceberam que quem tinha dinheiro eram os mais velhos, e procuraram agradá-los com modelos bem sóbrios e pouco chamativos, com espaço pra família inteira. E essa característica continua presente, mesmo hoje, duas ou três gerações depois. Olhe ao seu redor num dia qualquer e veja por você mesmo quantos carros prateados você vê por aí. Ou quantos sedãs. São a grande maioria.
Pra quem não entende muito bem as categorias de carros (eu mesmo não entendia até pouco tempo), aqui tem uma explicação mais ou menos resumida. Os dois tipos de carro mais comuns no brasil são os hatches de entrada, por serem os mais baratos do mercado, e os sedãs de entrada, que normalmente são só versões um pouco maiores e mais caras dos primeiros. Historicamente, isso se explica pelos fatores que eu apontei no último parágrafo, mas será que nosso mercado não anda um pouco diferente?
Esse é o Kia Koup, uma versão coupé do sedã premium (?) da mesma marca, o Cerato. Boatos (ou não) dizem que ele será lançado aqui no brasil em maio. Eu, particularmente, acho maravilhosa a iniciativa da Kia de lançar um coupé no mercado nacional, onde eles praticamente não existem. O coupé é uma categoria mais esportiva, mais jovem, menos careta por natureza, e não-caretice é uma coisa que faz muita falta aqui.
O único problema é o preço. Nós estamos mostrando sinais de desenvolvimento, mas a maior parte da população brasileira ainda não tem o poder de compra que os cidadãos da Europa ocidental ou dos EUA possuem. As tentativas passadas de lançar carros coupé no mercado brasileiro aparentemente falharam (ex: Opel Tigra e Fiat Coupé), mas acredito que hoje, 10 ou 15 anos depois, a situação seja diferente. Eu acho que há uma grande lacuna no Brasil, esperando pra ser preenchida por carros assim, só que por modelos de entrada.
Srsly montadoras, vocês não percebem? Se eu fosse comprar um carro hoje, compraria um hatchback, por ser a opção mais adaptada aos meus gostos e necessidades, mas se existisse um coupé de entrada, um modelo arrojado, atraente, bonito e custando menos de 35 mil reais, eu não teria dúvidas em optar por ele. E tenho certeza que milhares de jovens brasileiros que hoje em dia estão fazendo faculdade e em menos de 5 anos terão dinheiro pra comprar seus próprios carros também pensam assim. É um enorme buraco no mercado, esperando apenas alguém ser esperto o suficiente pra notar que ele existe.
Um dos poucos coupés que existem no mercado nacional hoje em dia é o Chevrolet Camaro…
…que custa 185 mil reais aqui, enquanto nos EUA custa 22 mil dólares. Enfim, esperamos mudanças. 100+
Formulários
abril 6, 2011Hoje eu tô inspirado pra reclamar e resolvi falar aqui de uma coisa que não cabia no twitter. Eu nunca visitei outros países, e realmente não sei se lá fora é assim, mas tem uma coisa no Brasil que me incomoda bastante: a burocracia. Reclamar de burocracia é mais clichê que entrar no esconderijo dos bandidos chutando a porta e dizer “a festa acabou!”, mas eu tenho dois exemplos específicos sobre os quais gostaria de falar.
Primeiro, sobre o Sr. Carlos Sampaio, que eu vi ontem no Fantástico. Resumidamente, o cara sonhava desde pequeno em ser militar. Quando tentou entrar pro exército, foi rejeitado por sei-lá-que-motivo. Começou a trabalhar num zoológico, de lá passou pra uma empresa de segurança e por fim chegou na área administrativa da polícia. Autodidata, ele leu manuais de segurança do mundo inteiro, inclusive da Rússia, e teve a ideia de um sistema de segurança que gostaria de mostrar pros superiores. Como não era militar, ninguém dava ouvidos. O que ele fez? Inventou que tinha uma patente, na cara de pau mesmo, simplesmente falando, e começou a ser respeitado. Trabalhou muito, deu palestras, treinou oficiais, coordenou operações, ajudou na reorganização da polícia do RJ, não roubou um centavo sequer, e o que ele ganhou com isso? Foi preso, por não ser militar.
E hoje, no Jornal da Globo, vi o caso de uma escola em Campo Grande. A escola, de ensino médio, resolveu punir seus alunos por mau comportamento. A punição: trabalho, oito horas por semana, fora do horário de aulas, com autorização dos pais, sob prazo máximo de um mês. O projeto deu bons resultados, segundo a escola, mas o Ministério do Trabalho (ou sei lá o quê whatever) processou a escola porque, segundo eles, isso era inconstitucional e blablabla mimimi.
Segundo o Roberto Damatta, no mundo todo as leis são criadas pra regulamentar o comportamento social das pessoas. As leis refletem o comportamento, não o contrário. O Brasil, por outro lado, é um país que existe sobre um conflito entre uma “grande minoria” (os pobres) e uma “pequena maioria dominante” (os ricos). As leis, tanto aqui quanto, por exemplo, nos EUA, foram criadas com base na população de “classe média”, mas a classe média nunca foi maioria aqui, como é nos EUA. Resultado: nossas leis não ajudam ninguém e só servem pra causar chiadeira e pra umas entidades atrapalharem o trabalho de outras.
Porra, convenhamos. O cara do primeiro exemplo estudou a fundo o objeto do seu trabalho. Aposto que ele passaria num teste de aptidão para o cargo (que aliás, na minha opinião, seria desnecessário, porque ele já exercia o cargo muito bem). Mas não, ele foi preso porque não tinha o maldito papel que provava que ele era um militar (como se o fato de ele SER um militar, na prática, não provasse o suficiente). Assim como o Bill Gates não poderia dar aulas numa universidade brasileira porque ele não tem um mestrado.
No segundo caso, eu, pelo menos, achei a punição aplicada pela escola bastante razoável, e se estava dando bons resultados, não tinham nada que processar eles. Parece que é uma obsessão nacional por papel, documentos, formulários, burocracia. E uma tendência de todas as instituições de trabalharem sempre umas contra as outras, nunca a favor, nunca coletivamente. Eu acho isso tudo ridículo e gostaria muito que mudasse. 100+









